Fatima Guedes
Fatima Guedes - 1979

Gravadora: EMI
Produtor: Renato Corrêa/Eduardo Souto Neto

ONZE FITAS
(Fatima Guedes)

Por engano, vingança ou cortesia
tava lá morto e posto um desregrado
onze tiros fizeram a avaria
e o morto já tava conformado
Onze tiros no morto e pra que tantos
esses tempos não tão pra ninharia
não fosse a vez daquele um outro ia
Deus o livre morresse assassinado
pro seu santo não era um qualquer um
três dias num terreno abandonado
ostentando onze fitas de Ogum
Quantas vezes se leu só nesta semana
e essa história contada assim por cima
A verdade não rima
a verdade não rima
a verdade não rima

Teclados: Gilson Peranzzetta
Bateria: João Cortez
Surdo: João Cortez
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Tamborim: Marçal (Nilton Delfino Marçal)
Cuíca: Marçal (Nilton Delfino Marçal)
Violão: Oscar Castro Neves
Arranjador: Gilson Peranzzetta

ESSE SOL
(Fatima Guedes)

Onde começa a comida e
termina o miserê?
Onde começa esse sol, onde acaba
esse dia comprido?
Tem tanto tempo que eu falo
que vou vencer
E eu, o que é que eu vou fazer
com esse meu filho doente
pronto pra morrer?
Ver minha mulher chorando, cabeça
encostada no fogão
tanto maltrato envelhece seu
rosto de carvão
Ela faz prece, faz chá de folha de saião
ela jura que o menino vinga, mas
não vinga, não
Vendo meu filho num canto escuro
tanto me dói esse seu gemido
parte, me toca, me rasga meu
peito de marido

Viola 12 Cordas: Alemão (Olmir Stocker)
Oboé: Braz Limongi
Acordeon: Gilson Peranzzetta
Efeitos: João Cortez
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Arranjador: Gilson Peranzzetta

PREVISÃO
(Fatima Guedes)

Quem sabe você volta quando
estiver de porre
do mesmo jeito que chegou
parando o meu corre-corre
Da mesma forma me abraça, tonto
ébrio de louco de amor, deitando por cima
de mim como quem agoniza e morre
Quem sabe você se levanta de manhã
passado o fogo
dizendo que acabou o álcool
mas não acabou o jogo
Pedindo pra voltar pra mim
pro meu colo, pro meu calor
com aquela humildade de quem
já se acha superior
Você é quem bebe e eu que
fico embriagada
você é quem volta e eu que
fico apaixonada
Se dorme na minha cama e toma
do meu café
de manhã, cadê meu pudor, amor
cara lavada
Então, eu me pulo de novo pra
vida com você
perdôo, eu não tinha mesmo mais
nada que fazer
Meu coração é um bicho bobo
e acostumou com esse descaso
e tudo se prepara pra outra vez acontecer

Teclados: Gilson Peranzzetta
Bateria: João Cortez
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Violão: Oscar Castro Neves
Flauta: Ricardo Pontes
Arranjador: Gilson Peranzzetta

MENINAS DA CIDADE
(Fatima Guedes)

São doze pancadas (doze badaladas)
sol a pino, a telha vã
esquenta o pó da minha casa
esquenta a bilha d´água
de tanto que ferve na minha mão
agulha e pano, armas de todo dia
Na minha mão tesoura e fé
e pé na mesma tábua em falso
(destino e pé descalço)
Desde manhã sentada e presa aqui
rasgando as sedas das rainhas
os brancos das donzelas
que no escuro da cidade alguém
há de despir
Ninguém verá tão belas
filhas da falsidade
A vila é tão pequena e infeliz sem elas que
Que são doze pancadas, são doze ruelas
que desgraçadamente sempre vão dar
numa mesma praça seca
de noite suspirada
De noite, tão imensamente farta
das paixões do dia
De noite, suficientemente larga
pras bandalharias
Meninas que se vem chegando aqui
cinturas ainda finas, medir felicidade
No rosto a marca dos batons
das senhoras de bem
as damas da cidade
No peito arfante o roxo das mordidas
mais ferozes
filhos da mesma terra, andantes e viajores
rapazes e senhores de mais realidade
São doze pancadas (já são doze dadas)
A lua a pino e eu já sei
que vou entrar na madrugada
rematando bainhas
pregando rendas que amanhã vai ser
o baile das rainhas
Amanhã, já se sabe que elas vão fazer
a história da cidade
são muito cinderelas

Violão 12 Cordas: Alemão (Olmir Stocker)
Trombone: Edmundo Maciel
Teclados: Gilson Peranzzetta
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Saxofone Soprano: Ricardo Pontes
Arranjador: Gilson Peranzzetta

CARA A MÁSCARA
(Fatima Guedes)

Se alimenta do meu medo
respira do meu pavor
pois que no fundo tem medo
da extensão da minha dor
Corpo a corpanzil se mostra e ri
e gosta do meu estado de abandono
cara a máscara me enfrenta
com vantagens de meu dono
Grande guardador que é
grande senhor, grande senhor
um dia esse seu vozeirão
já não me causa mais temor
Um dia eu abro essa porta
e meu diabo te atenta
e a minha faca te entra
e a minha raiva te corta
E há de cair coisa morta
sangue e sangue e alegria
meu medo longe da porta
justificando a histeria

Piano: Gilson Peranzzetta
Arranjador: Gilson Peranzzetta

CACHORRO MAGRO
(Fatima Guedes)

Às vezes, quem manda é ela
quando ele fica exposto
quando ele briga com ela
e não levanta o rosto
Se ele briga tonteado
e acaba aos cuidados dela
e ela não sai do seu lado
ele ainda que humilhado
não chora no peito dela
Tal e qual cachorro magro
ronda ela na cozinha
ela bota a mesa toda
e ele não pede a farinha
Senta no sofá pra ler
notícia boba em voz alta
quando não fica engasgado
num recado de vizinha
Tantas noites sem paixão
que não se abusam malícias
ele volta pro sofá
tenta de novo as notícias
tenta um disco na vitrola
que nem chega no refrão
mas pedir perdão
Nas vezes que manda ela
o pai não gaba o gosto
mas se ele briga com ela
e não levanta o rosto
Cachorro que ronda ela
olhar de fome e mazela
E ela não sai do seu lado
e ele ´inda um pouco zangado
perdoa a sua cadela

Teclados: Gilson Peranzzetta
Guitarra: Hélio Delmiro
Bateria: João Cortez
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Arranjador: Gilson Peranzzetta

FULANO, BELTRANO E SICRANO
(Fatima Guedes)

Taí
uma mulher com pecados
habilmente dividida
Três homens no meu caminho
três caminhos sem saída
o Fulano é meu amigo
o Beltrano é meu marido
o Sicrano é meu amor
e a briga cá é comigo
eu é que sei
Teve de ser com Fulano
de quem eu sou a pela fraca
a amante mais devassa
seu estopim de desgraça
de encontros em pleno dia
e o medo que ele me passa
e a pressa que ele me passa
eu sei que se ele me aperta
sente em meio seio a fogaça
Eu sou mil vezes melhor
embora ele adore a outra
Fulano me deixa louca
Beltrano me quis primeiro
arrebatou-me princesa
viril, forte e cavalheiro
elogiou minha beleza
E Beltrano me escolheu
pra ser o que há de mais seu
a mãe de seus garotinhos
todos de olhos tranqüilos
seus filhinhos, meus filhinhos
Beltrano é o que há de mais puro
Mas Sicrano ainda me olha
com tanto apego
gosta e não gosta de estar comigo
Sente no meu respirar
uma nota de perigo
me tira e me pôe nos seus planos
Sicrano vai nisso há anos
Ele sabe que minha vontade é ele
e me deixa esperar por de repente
Sicrano me pôe doente
O Fulano é meu amigo
o Beltrano é meu marido
o Sicrano é meu amor
e a briga cá é comigo
eu é que sei

Teclados: Gilson Peranzzetta
Violão: Oscar Castro Neves
Arranjador: Oscar Castro Neves

PASSIONAL
(Fatima Guedes)

Já vai embora
não diga adeus toda hora
diga só um que tente cortar
esse meu ar de sua senhora
insuportavelmente um ar que te explora
Não morra de pena de mim
o que eu sinto
é coisa que passa e não mora
Seja feliz pela vida
pra mim é questão de tempo ou bebida
pode ser de tempo ou ser de temporal
daquele que arrasa e que a tudo faz mal
depois tudo fica igual
Esqueça meu pranto
e meu rosto arrastando
esse amargo terror passional
Veja meu caro
nosso amor não foi nada de raro
teve um magro final
o fim de toda trama
que começa na cama
e termina metade carnal
Já vai embora
me deixe sozinha agora
que eu quero me despentear e me desesperar
pela casa afora
sumir no rubor de quem chora
clamar a explosão do desgosto
e acabar com esse meu ar
de sua senhora

Teclados: Gilson Peranzzetta
Bateria: João Cortez
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Violão: Oscar Castro Neves
Arranjador: Oscar Castro Neves

MADAME
(Fatima Guedes)

E então, taí uma canção
na qual você se reconhece
e eu quero ver ciúme
nessa tal que te merece
Não seja uma canção de amor
mas traia mágoa
Madame, o seu marido fez
essa mulher chorar amargo
pensar em suicídio
quando ia em dezessete
e ainda o cheiro dele
no meu ódio se intromete
Eu sei que ele me lembra à revelia
mas não lhe contaria o que não lhe interessa
E tudo aquilo que ele me ensinou
e eu aprendi depressa, tudo por amor
foi junto com o vexame, fascinação do exame
de um primeiro professor
Madame, jamais me arrependi
de ter amado o seu marido
de um tempo em que ele era
ainda galante e já bandido
ciúme vem de mim que fui
romance de segunda

Teclados: Gilson Peranzzetta
Bateria: João Cortez
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Violão: Oscar Castro Neves
Arranjador: Oscar Castro Neves

NOTÍCIAS DE MIM
(Fatima Guedes)

Procurando por mim
eu já soube porque
ironia pra quem jurou me esquecer
Eu estou muito bem pra quem me quer bem
'inda apenas um pouco pior pra você
Quer notícias de mim
não se faça de bom
que eu já soube de tudo pelo garçom
indiscreto e cruel ele sempre foi
arremedo fiel desse pobre nós dois
Ensaiei te matar bem aqui no Leblon
há que pôr tanta raiva em dia
mas o coração não me crê
e ele mesmo improvisa, negocia
Quer notícias de mim
eu já soube porque
quer a prova de que nada é irreparável
me procure que eu dou esse tal de amigável
sempre assinei por cima do meu querer, é
Ensaiei te matar bem aqui no Leblon

Teclados: Gilson Peranzzetta
Bateria: João Cortez
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Violão: Oscar Castro Neves
Arranjador: Oscar Castro Neves