Fatima Guedes
Pra Bom Entendedor - 1993

Gravadora: Velas
Produtor: Paulinho Albuquerque

VIOLÃO
(Sueli Costa e Paulo Cesar Pinheiro)

Um dia eu vi numa estrada
um arvoredo caído
não era um tronco qualquer
Era madeira de pinho
e um artesão esculpia
o corpo de uma mulher
Depois eu vi
pela noite
o artesão nos caminhos
colhendo raios de lua
Fazia cordas de prata
que, se esticadas, vibravam
o corpo da mulher nua
E o artesão, finalmente
nesta mulher de madeira
botou o seu coração
e lhe apertou contra o peito
e deu-lhe um nome bonito
e assim nasceu o violão

Violão: Hélio Delmiro

VÔ ALFREDO
(Guinga e Aldir Blanc)

Vô Alfredo
tinha febre lá na língua do frê
e danava a dançar o frevo
numa afrição africana
uma macumba fremente
que não se vê mais não
Minha língua se soltava do freio
e falava em tesão
hum, hum, hum, hum...
Ai, ai, como era bom
pular no cordão
Friendship from Recife
sifu se o Mister Pou
frajola pr'arriba da gente
com seu fru-fru fricoteiro
um canhão de ketchup
em onda de tubarão
Minha língua manda à merda esse freio
três veis salve o tesão
hum, hum, hum, hum...
Ai, ai, frevo e baião
toada e sambão
Canta o pau, acorda o zabumba
freme, freme o sertão
Canarim, canarim, eu desfraldo
o frevo no coração
Canarim, canarim, fraternal
fratura a fronteira, irmão
Vovô Alfredo, eu vou ao frevo
frevendo de emoção

Cavaquinho: Chiquito Braga
Violão: Guinga
Percussão: Marcos Suzano

FACA
(Fatima Guedes)

O seu nome é uma faca
me dilacerando
O segredo é uma faca
de dois gumes
morro de paixão
morro de ciúmes
Você vive na estrela
incomunicável
Você fala comigo
e nem me vê
Preciso olhar o céu
pra compreender você
O seu nome é uma faca
lâmina afiada
enterrada no peito até o fim
É melhor morrer de uma vez
eu estou jogada a seus pés
tenha dó de mim

Violão: Cláudio Jorge
Assobio: Fátima Guedes
Teclados: Itamar Assiere
Contrabaixo: Sizão Machado
Arranjador: Cláudio Jorge

O SILÊNCIO DAS ESTRELAS
(Lenine e Dudu Falcão)

Solidão
no silêncio das estrelas
a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo
em minhas mãos
feito um Deus
que amanhece mortal
E assim
repetindo os mesmos erros
dói em mim
ver que toda essa procura
não tem fim
O que é que eu procuro afinal?
Um sinal
uma porta pro infinito irreal
O que não pode ser dito
afinal
ser um homem em busca de mais
Afinal
feito estrelas que brilham em paz

Baixo Elétrico: Arthur Maia
Violão: Lenine
Percussão: Marcos Suzano
Part. Especial: Lenine

A ROTA DO INDIVÍDUO
(Djavan e Orlando Moraes)

Mera luz
que invade a tarde cinzenta
e algumas folhas
deitam sobre a estrada
O frio é o agasalho que esquenta
o coração gelado quando venta
movendo a água abandonada
Restos de sonho
sobre um novo dia
Amores nos vagões
vagões nos trilhos
parece que quem parte é a ferrovia
que, mesmo não te vendo, te vigia
feito mãe, feito mãe
que dorme olhando os filhos
com os olhos na estrada
E no mistério solitário da penugem
vê-se a vida correndo parada
como se não existisse chegada
Na tarde distante
ferrugem ou nada

Baixo Elétrico: Arthur Maia
Violoncelo: David Chew
Acordeon: Gilson Peranzzetta
Violoncelo: Márcio Eymard Mallard
Saxofone Soprano: Zé Nogueira
Part. Especial: Djavan (Violão)
Arranjador: Gilson Peranzzetta

DILUVIANAS
(Guinga e Aldir Blanc)

Pra bom entendedor
Noel, o radical
fez o Brasil sair
em sangue vivo pela boca
E com que roupa eu vou
visitar catacumbas
cruzar com Villa-Lobos
nos terreiros de macumba
Pra bom entendedor
da lenda original
Moema dissolveu-se
quase igual a um sonrisal
E vi Caramuru
num terno da Ducal
pregar em Turiaçu
na igreja pentecostal
Pra bom entendedor
o novo carnaval
é o fogo se espalhando
entre os cães siberianos
E com o passar dos anos
como é que vai ser?
Talvez o pó vermelho
dos desertos marcianos
Pra bom entendedor
o trailer do final
matilhas de crianças
varrem as praias tropicastas
Se alastra entre os gurus
visões diluvianas
Carmem Miranda teme
que não haja mais bananas

Piano: Gilson Peranzzetta
Violão: Guinga
Percussão: Pirulito

ARTIGO DE LUXO
(Sergio Santos e Paulo Cesar Pinheiro)

Samba, agora
é artigo de luxo
é luxo só
Quem faz samba
tem sempre um catucho
na manga do paletó
Ele aguenta o repuxo, bambeia
cai no chão, sacode o pó
Mesmo fora da média
da mídia, da moda, da multi
na manha, na moita
ele sai do mocó
chega e já vai dando um nó
Todo moreno, quando passa
pode estar sambando
Toda morena, caminhando
mexe com o quadril
É que o samba tá no sangue
desse povo
tá no coração
de onde ele nunca saiu
Dois por quatro
é a cadência e o compasso
do chão do Brasil

Percussão: Armando Marçal (Marçalzinho)
Violão: Cláudio Jorge
Teclados: Itamar Assiere
Piano: Itamar Assiere
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Percussão: Ovídio Brito
Percussão: Pirulito
Arranjador: Itamar Assiere

SILENCIOSA
(Fatima Guedes)

Silenciosa, casa vazia
mormaço, quase meio-dia
A morena deitou
na rede e balança
ê, ô...
Casa deserta
olhos fechando
quase dormindo, cochilando
A morena deitou
na rede e balança
ê, ô...
Baiana de Gauguin
mulata preguiçosa
apanhou na cozinha a maçã
voltou silenciosa
Lançou distante
um olhar profundo
Nada acontece nesse mundo
A morena deitou
na rede e balança
ê...ô...

Viola: Bororó (Dimerval Silva)
Violão: Bororó (Dimerval Silva)
Baixo Elétrico: Bororó (Dimerval Silva)
Teclados: Itamar Assiere
Violoncelo: Márcio Eymard Mallard
Percussão: Marcos Suzano
Arranjador: Bororó (Dimerval Silva)

DESTINO BOCAIÚVA
(Guinga e Aldir Blanc)

E aí, sou de Quintino Bocaiúva
subúrbio e eu é feito assim
a mão e a luva
Eu sou de Bocaiúva e dou de zero
manjo o canário, tico-tico e quero-quero
O clube de Quintino
é parecido com a muvuca da gente
que lá Fernando é boy
não manda nada
e o Toninho se empossou presidente
Então, sai da frente
Por isso, eu vou tinindo pra Quintino
naquela boca está o mapa do tesouro
Meu tino é no Quintino de menino
é pipa, é bola, mariola
e lá tem choro
A cólera me fez mais de uma vez
Bornhausen em pleno salão
Eu já curei donzela de espinhela
de sair pela janela, varão
com as calças na mão
Cafetão de gravata
é de Quintino Bocaiúva
invasão de barata
isso acontece se chover
Capitão de fragata
em Bocaiúva também dá
Um montão de babaca
nasce em todo lugar
Bocaiúva me diz
que um bom exemplo pro país
é o melhor carnaval
Quero aqui repetir
que o nosso quadro social
vai da tribuna à geral
Em Quintino
é que eu sei respirar
o bicão natural não vai lá
porque lá em Quintino
é destino, não dá
pr'outro cretino aprontar

Violão: Guinga
Percussão: Marcos Suzano
Clarinete: Netinho
Part. Especial: Guinga

RESTOS DE UM NAUFRÁGIO
(Fatima Guedes)

Sussurrante é teu amor
um escafandrista
tateando em mim
dramas a perder de vista
o dom de acariciar
profundamente feito o mar
remexendo o que o naufragou
lentamente na solidão
Falsa paz submarina
jaz entre os corais
num barco submerso
o que eu não confesso
Iça do abismo
ardor, orgulho
novos tanques de mergulho
pra poder assim me resgatar
do frio verde
Por paixão eu volto à tona
e Atlântida entre as ondas
solene, linda sai do mar

Teclados: Itamar Assiere
Piano: Itamar Assiere
Baixo Elétrico: Luizão Maia
Violão: Moacyr Luz
Flugelhorn: Paulinho Trompete
Arranjador: Itamar Assiere

SANTA BÁRBARA
(Fatima Guedes)

Santa Bárbara dos tempos violentos
vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga
a imensa escuridão
Muitos ventos, muitos ventos
passam por meu coração
na carícia quase bruta
do poder de vossa mão
Senhora me iluminai
clareai meus pensamentos
Santa Bárbara
dos tempos violentos
Vejo em vossos elementos
a chuva não vai parar
até ter deixado limpos
meu corpo e minha alma
Dona dos meus temporais
Senhora de olhos cinzentos
Santa Bárbara dos tempos violentos

Violão: Cláudio Jorge
Violoncelo: David Chew, Diana Braga de Lacerda, Eduardo Guaita, Fábio Soren Presgrave, Fernando Bru Pesce, Hugo Pilger, Márcio Eymard Mallard, Saulo Moura de Almeida
Percussão: Ovídio Brito, Pirulito
Contrabaixo: Sizão Machado

DEIXA FALAR
(Fatima Guedes)

Todo mundo pensa
que eu tenho um xodó
Deixa falar, será que é?
Mas eu dou o meu amor
pra quem eu quiser
eu dou pra quem eu quiser
Todo mundo pensa
que um xodó é asim
chegar, ficar, grudar ni mim
Mas, assim, grudadinha
eu sou mais maxixeira
eu sou a fina flor
da mulher brasileira
Todo mundo pensa
que eu gosto de você
Deixa falar, que eu quero ver
do carinho que eu guardo
ninguém vai saber
ninguém jamais vai saber
Minha vida é um maxixe
e maxixe é assim
Chegar, ficar, grudar ni mim
Mas se eu tenho um xodó
que me faz tão brejeira
Eu sou a fina flor
da mulher brasileira

Percussão: Armando Marçal (Marçalzinho), Marcos Suzano
Guitarra: Bororó (Dimerval Silva)
Viola: Bororó (Dimerval Silva)
Baixo Elétrico: Bororó (Dimerval Silva)
Violão: Bororó (Dimerval Silva)
Arranjador: Bororó (Dimerval Silva)

SETE ESTRELAS
(Guinga e Aldir Blanc)

Eu sou a música da gente
quando nua e crua
escorro do nariz do pobre
quando ele se assua
sou a Carolina na janela
desejando a rua
com a solitude eu ando acompanhado
cada virtude minha é um pecado
Varejeira come lixo
feito creme chantili
e que mistério tem aí?
E qual lição que eu aprendi?
Sou o cachorro na viela
cobiçando a lua
sou o vermelho da donzela
quando ela menstrua
o amassado na baixela feito com gazua
A solitude eu quis por companheira
cada mentira minha é verdadeira
Trepadeira borda folha
feito ponto macramê
é um mistério de se ver
é uma lição pra se aprender
pior que a morte é desviver
Varejeira faz zoeira
no monturo do meu coração
sete estrelas eu quisera
sete vezes azuis, sentinelas
do meu violão
Eu sou a lágrima e o sal
que o triste chora e sua
eu sou a fome que há na santa
quando ela jejua
e o grito doido
na garganta de uma cacatua
Com a solitude eu ando acompanhado
cada virtude minha é um pecado
Varejeira come lixo
feito creme chantili
e que mistério tem aí?
E qual lição que eu aprendi?
Sou a paixão que faz sequela
quando pega e incrua
eu sou o monstro da lagoa
quando ele flutua
se tu disser que é a minha
eu digo que é a tua
A solitude eu quis por companheira
cada mentira minha é verdadeira
Trepadeira borda folha
feito ponto macramê
é um mistério de se ver
é uma lição pra se aprender
pior que a morte é desviver
Trepadeira tece esteira
nas paredes do meu coração
sete estrelas benfazejas
sete vezes irmãs sertanejas
do meu violão

Violão: Guinga
Percussão: Marcos Suzano
Arranjador: Bororó (Dimerval Silva)

FLOR-DE-IR-EMBORA
(Fatima Guedes)

Flor de ir embora
é uma flor que se alimenta
do que a gente chora
Rompe a terra, decidida
flor do meu desejo
de correr o mundo afora
Flor de sentimento
amadurecendo, aos poucos
a minha partida
Quando a flor abrir inteira
muda a minha vida
esperei o tempo certo
E lá vou eu, e lá vou eu
flor de ir embora eu vou
Agora, esse mundo é meu

Violão: Cláudio Jorge
Teclados: Itamar Assiere
Contrabaixo: Sizão Machado
Flauta G: Zé Carlos Bigorna (José Carlos Machado Ramos)
Arranjador: Cláudio Jorge